Friday, February 13, 2009

Domadora de Leões



Dois anos passaram e, finalmente, Charlotte conseguiu domar todas as suas criaturas interiores. Estavam calmas e domesticadas. A arma utilizada para tal feito foi a mesma de sempre: vingou-se no seu trabalho; vivia para ele e todo o seu tempo estava lhe destinado. Embora sabendo que não era a solução ideal, continuava a fazê-lo. Produzia os resultados que ela pretendia.
No seu dia-a-dia emaranhava-se nos papéis que a rodeavam e rápido começou a evoluir e a lutar pelo seu lugar, sabia que o que fazia, fazia-o bem. Guardando ainda o tempo que lhe restava para o gozar na companhia das suas sempre fiéis amigas, entre jantares, saídas para dar um pézinho de dança e amenas cavaqueiras até tardias horas.
Charlotte não permitia que ninguém entrasse no seu mundo; dizia que sabia o que queria, era assim que estava bem. Se alguém se tentava aproximar, rapidamente ela conseguia afastar com toda a perspicácia e argúcia que caracterizam o sexo feminino.
Mas a tranquilidade que reinava na sua vida tinha os dias contados. A chegada de Matthew na sua vida, roubou-lhe a paz.

Ela era uma domadora de leões nata, mas encontravasse a gozar a sua licença sem vencimento.
Contudo, nenhuma domadora de leões consegue resistir aos encantos e à subtileza de um Panthera leo krugeri.





Tratou de investigar e recolher o máximo de informações sobre este felino, andava louca, possuída e subitamente deparou-se com os seus sentimentos: acabou a licença sem vencimento, voltou a ser a domadora de leões que tinha adormecido dentro de si.

Dedicou-se a ele, não como uma mãe se dedica a um filho; dedicou-se de alma e coração com um único objectivo. Amansar aquela fera. Afinal de contas era um animal selvagem. Sabia que esta podia ser uma aposta errada, mas resolveu apostar independentemente das consequências que poderião advir da sua impulsividade.
Acabara de confirmar o que sempre lhe disseram desde muito pequenina: era uma pessoa racional, extremamente racional, fria e calculista, mas um dia seria traída pelo seu coração. Naquele momento soube que não estava a ser racional, estava a ser traída pelo seu próprio coração.

Aquele estranho animal, ao alertá-la para os problemas genéticos que caracterizam um leão branco, sabia-o, melhor o que ninguém, que já era tarde. Charlotte não conseguia afastar-se de Matthew, preferindo ignorar que estava perante um animal selvagem que nunca o deixaria de ser, porque era este o seu gene.

Vezes e vezes sem conta, ele metia as garras de fora e atacava-a, ora em tom de brincadeira, ora tendo plena consciência que o fazia. Ela ia escondendo as feridas destes sucessivos ataques. Não lhe queria dar esse prazer.
As feridas começaram a aparecer, as cicatrizes começaram a serem visíveis e a preocupação de todos aqueles que rodeavam Charlotte passou a ser uma constante. Junto daqueles em quem ela confiava cegamente, mostrou-lhes as feridas dos sucessivos ataques que aquele leão lhe provocava.
A sua racionalidade dizia-lhe: não vais perder a coragem, vais conseguir domá-lo, por mais que ele te ataque! Aos seus olhos, ele podia deixar de ser um animal selvagem, mas somente aos seus olhos. Ela ignorou meses, após meses que ele não passava de um ser irracional, sem sentimentos, calculista e cheio de subtileza quando se tratava de atacar. Ela não passava de mais uma presa.

Sempre que ele desaparecia, ela esperava. Sempre que ela tentava interiorizar que ele não passava de um predador faminto de carne, ele meigamente aproximavasse. Ela cedia. Ele atacava-a, deixando-a novamente em ferida.

Continuando sem o demonstrar, chegava a casa e era no seu mundo e no seu cantinho que sarava as feridas que ele insistentemente lhe causava. Mas onde raio estava a saída de emergência que ela tanto precisava para fugir dele? Porque motivo essa porta teimava estar fechava a sete chaves, fazendo com que ela não encontrasse a saída?

O seu corpo já lhe pedia para ela não voltar a ser atacada, a sua alma implorava a paz e o sossego, o seu espírito estava cheio de cicatrizes e em feridas que teimavam em abrir. Ela tinhasse perdido, perdeu o seu caminho, perdeu-se de amores por ele, perdeu toda a dignidade que tinha ao consentir ser massacrada da forma abrupta e reiterada em que o era. Esgotou as suas capacidades, tinha de fugir... desaparecer.


Três semanas sem sinais do leão; enquanto ele caçava, ela tentava recuperar-se. Ele voltou ao seu porto de abrigo: ela. Ela tinha recuperado. Estaria disposta a continuar? Iria voltar a ceder? Cedeu...

...Cedeu por três dias. No primeiro dia foi completamente atacada; mas desta feita, ele conseguiu sangrar-lhe não só a alma mas todos os seus órgãos vitais. O que aconteceu à sua dedicação inicial em mudar aquele bicho? Desapareceu neste dia. Mentiu-lhe pela primeira vez. Porque esta foi a pergunta que ele lhe fez e à qual, secamente, ela respondeu: há muito tempo que perdi a esperança em ti.

Conseguiu sair sem feridas, mas teve de voltar, tinha deixado com ele algo que lhe pertencia. Regressou com um único objectivo: reaver o que era seu.

Voltou a procurá-lo, aliás, deixou-o que a encontrasse, mais uma vez. Ela sentia necessidade de se despedir dele, sem pré-avisos ou cartas com aviso de recepção ela foi, despediu-se e desapareceu com a frieza que em tempos a caracterizava. Três dias. O seu número... Será que tinha conseguido? No fundo, ele sabia que ela o ia deixar: vamos chamar-lhe de instinto animal.

Ele procurou, ela novamente deixou-o que a encontrasse. Explicou-lhe que aquela tinha sido a sua despedida, não tinha de explicar os motivos. Ele sabia melhor do que ninguém o quanto a tinha magoada, o quanto tinha jogado com ela. Estava de parabéns. Tinha jogado com toda a mestria e era o grande vencedor.

Mesmo sabendo que aquela fera ferida não queria ser resgatada do abismo para o qual, lentamente, caminhava, Charlotte concedeu-lhe a sua despedida dela.

O grande leão, mesmo sabendo que seria a última vez, que a sua decisão estava tomada, independentemente de tudo isto, tentou agarrá-la, numa expectativa que frustrou, de a ter de volta. Ele esqueceu-se: era ela a Domadora de Leões e ele o Leão dela.

Não o conseguiu domar, desistiu, ele já não é, se é que alguma vez o foi, o seu Leão.


Ela fez exactamente o que ele lhe pediu: saiu e atrás de si, bateu a porta. És e sempre serás livre. Boa sorte!

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